sexta-feira, 23 de março de 2012

Carta aberta ao apóstolo Valdinero Somilagro


Prezado apóstolo Valdinero Somilagro, estou impressionado com a sua popularidade. E tenho percebido que o senhor é querido até mesmo por ferrenhos críticos dos telenganadores da atualidade. Mas, a despeito de eu também reconhecer o sucesso de seu empreendimento e valorizar o lado bom de seu trabalho, preciso dizer-lhe algumas palavras não muito agradáveis.

Sei que o senhor já foi um dos seguidores do maior evangelista do século, o bispo Pedir Maiscedo. E estou ciente de que o senhor está em disputa por audiência com o mencionado telebispo e também com o telemissionário Acerte Acerte Soares. Essa disputa entre os senhores é enfatizada, ainda, por meio dos adjetivos de grandeza das suas universais, internacionais e mundiais igrejas, além do uso de títulos diferenciadores: bispo, missionário e apóstolo.


Apesar da origem comum dos senhores, vejo que o estimado apóstolo Valdinero Somilagro tem adotado uma estratégia diferente. O bispo Pedir priorizou, no começo, o exorcismo, mas atualmente enfatiza mais a teologia da prosperidade. E o seu empreendimento tem crescido bastante, a ponto de ele conseguir manter uma grande emissora. Já o Acerte Acerte preferiu seguir a confissão positiva de Kenneth Hagin e outros “mestres da fé”, a qual, sem dúvidas, também é muito rentável.


Maiscedo continua investindo na teologia da prosperidade, baseada em sua famosa máxima “Ou dá, ou desce”. Já o simpático e cativante telemissionário continua com os seus ensinamentos sobre “determinação”, a despeito de também ter os seus bispos milagreiros e suas grutas de milagres. Quanto ao senhor, caro Somilagro, realmente tem sido diferente dos outros, posto que enfatiza mais do que eles a obra que o Senhor Jesus realizou por toda a humanidade. Mas não concordo com a estratégia que o senhor emprega para conquistar seguidores: propagar um
evangelho centrado prioritariamente em milagres.

Reconheço que o senhor é dono de um grande carisma. Seu poder de convencimento é maior do que o do telebispo e o do telemissionário, pois é inegável que os pobres, enfermos e sofredores (que são a maioria da população) vão querer estar ao lado de quem resolve os seus principais problemas.

Por que resolvi escrever-lhe esta carta? Porque vejo semelhanças entre o seu empreendimento e o ministério terreno do Senhor Jesus. Ele também foi seguido por grandes multidões de interesseiros por fazer milagres e curar os enfermos. Mas, quais são as diferenças entre o Bom Pastor Jesus Cristo e o apóstolo Valdinero Somilagro?

O Senhor Jesus não pregava prioritariamente milagres, e sim o Evangelho (Mc 1.14,15). Somilagro prega prioritariamente milagres! Jesus realizou milagres e curou os oprimidos do Diabo (At 10.38), mas também falou toda a verdade aos que o seguiam por interesse, e a maioria deles foi embora por causa disso (Jo 6.60-69). Somilagro, ao contrário, parece valorizar ao extremo o aumento do número dos que só querem receber milagres, como alguns que desejam tocá-lo ou passar o lenço em seu suor.

Por que o senhor não prioriza a pregação da verdade completa, como fazia o Bom Pastor? Nenhum seguidor de Cristo foi chamado para pregar prioritariamente milagres, pois estes são o efeito do Evangelho (Mc 16.15-20). Quando se prega principalmente milagres, como tem feito o senhor, caro Somilagro, contribui-se para o aumento de crentes interesseiros, que não querem saber de adorar a Deus em espírito e em verdade, tampouco estudar a Palavra do Senhor.

Outrossim, o Senhor Jesus nunca incentivou a criação de um ministério em torno de sinais, prodígios e maravilhas. Ele não fazia propaganda de suas realizações. E jamais lemos que Ele convocou a todos para uma grande reunião de milagres em Jerusalém ou em Nazaré! No Novo Testamento não há apoio ao ministério de pregador milagreiro. Vemos, em Efésios 4.11, que os ministérios principais são: apóstolo (ministério, e não título), profeta, evangelista, pastor e mestre.

Em 1 Coríntios 12.28, há uma hierarquização dos dons e ministérios do Espírito Santo na qual se vê que os milagres estão ligados a dons esporádicos, a manifestações momentâneas do Espírito, e não a ministérios específicos. No caso de um ministério, o dom fica com o portador; é residente. Por exemplo, o pastor é um ministro com o dom do pastorado; o mestre é portador do dom do ensino, e assim por diante. Mas não existe ministério de milagreiro. Isso é uma invenção para desviar as pessoas da verdade.

De acordo com o texto bíblico acima, caro apóstolo Valdinero Somilagro, Deus pôs na Igreja primeiramente apóstolos (como ministério, e não como título, repito); em segundo lugar, pôs profetas (pregadores da Palavra de Deus, nesse caso); em terceiro, mestres. Depois, pôs milagres (operação de milagres), e não milagreiros!

Se não existe o ministério de milagreiro, por que o senhor age como tal, atraindo todas as atenções para si e tornando-se uma espécie de curandeiro “evangélico”? Por que o senhor prioriza milagres, se na hierarquização feita por Deus os milagres não são prioritários? O senhor sabia que, a despeito de o Bom Pastor ter realizado muitos sinais, prodígios e maravilhas, dois terços do seu ministério foram ocupados com a pregação e o ensino da Palavra de Deus? Por que o senhor não aumenta o tempo da pregação do Evangelho na televisão?

Tenho quase certeza de que o senhor e boa parte dos seus discípulos não vão gostar desta carta e verberarão, sem refletir: “O importante é que os milagres estão realmente acontecendo; contra fatos não há argumentos”. Bem, essa argumentação seria incontestável se os sinais miraculosos não acontecessem também entre os seguidores das mais diversas religiões e seitas. Ou o senhor pensa que os milagres transformam mentiras em verdades ou encobrem erros?

Não há dúvidas de que Deus realiza maravilhas em nossos dias (Hb 13.8). E eu não estou lhe escrevendo para contestar os milagres que ocorrem em sua igreja. O problema está na priorização deles. João Batista recebeu destacado testemunho do Senhor Jesus (Mt 11.11), mas que milagre ele realizou? Nenhum. João destacou-se, antes, por dizer toda a verdade (Jo 10.41).

Há também falsos profetas e enganadores que operam muitos “milagres” (Êx 3; Ap 13; Dt 13.1-4; Mt 7.21-23). Por isso, caro apóstolo Somilagro, aconselho-o a pregar a verdade completa (o Evangelho integral), como Jesus, João Batista, Paulo e os fiéis servos do Senhor mencionados nas páginas do Novo Testamento pregaram. Quanto aos milagres, é bom que eles aconteçam em nosso meio, mas como efeito do Evangelho ou como consequência da pregação evangelística, conforme a soberana vontade do Senhor.

Respeitosamente,


Ciro Sanches Zibordi
 

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